
Durante muito tempo, a memória popular do forró orbitou em torno de nomes masculinos consagrados. Mas quem acompanha o dia a dia das festas, dos shows, das rádios e das políticas culturais sabe: essa história nunca coube num roteiro tão limitado. O documentário “A História das Mulheres no Forró”, dirigido por Igor Marques, fundador do Igoarias Musicais, e também cofundador do portal Embrazado ao lado de GG, reposiciona o olhar e ilumina artistas que tiveram suas trajetórias diminuídas ou simplesmente ignoradas ao longo do tempo.
Disponível gratuitamente no YouTube, o filme percorre quase um século de atuação feminina para mostrar que, enquanto a narrativa oficial seguia encolhida, as mulheres do forró produziam, criavam, organizavam, tocavam e lutavam. E que sem elas, o gênero simplesmente não existiria como conhecemos.
O documentário abre espaço para artistas fundamentais do Rio Grande do Norte — vozes que marcaram épocas, mas que raramente aparecem em destaque.
Entre elas está Ademilde Fonseca, que o Brasil consagrou como “rainha do choro”. Antes disso, ainda nos anos 1950, ela já gravava repertórios próximos ao baião e ao coco, apontando caminhos sonoros que só mais tarde seriam associados ao universo do forró. Esse movimento pioneiro abriu portas para outras intérpretes num mercado onde homens dominavam contratos, repertórios e pautas de rádio.
Outra figura celebrada é Hermelinda Lopes, integrante do Trio Mossoró, que levou o repertório sertanejo potiguar ao circuito nacional e, depois, consolidou uma carreira solo cheia de personalidade.
Além de recuperar trajetórias históricas, o documentário se volta para a cena atual. A roraimense Anne Louise, por exemplo, é a primeira sanfoneira profissional da história do estado e começou a carreira enfrentando questões que deveriam ser banais, mas não são.
Durante a entrevista, ela relata situações de palco em que técnicos de som pediam para falar com “o homem da banda”, como se não fosse ela a musicista principal. Ao mesmo tempo, Anne já dividiu palco com Duda Beat, Marina Sena e João Gomes, e protagonizou um musical sobre a forrozeira Marinês. A experiência, segundo ela, consolidou sua identidade.
“Foi um processo que me ajudou a entender quem eu sou dentro do forró.”
Na mesma frente da renovação aparece Joyce Alane, pernambucana que vem assinando releituras de clássicos do forró com frescor e respeito às raízes, especialmente no álbum Casa Coração. Ela colabora com nomes como João Gomes e Dorgival Dantas, colocando o forró em diálogo com a nova MPB.
Em conversa com a MashUp, Igor Marques, contou que tudo começou a partir de um incômodo pessoal: o próprio repertório dele era composto majoritariamente por artistas homens. Ao buscar referências femininas na internet e encontrar um vazio, ele enxergou ali uma urgência e uma oportunidade.
Segundo ele: “Quando percebi isso, notei também que a pesquisa por “Mulheres no forró” na internet, não dava conta da presença feminina na história do gênero. Eu já estava com vontade de fazer vídeos maiores para Igoarias e encarei esse cenário como uma oportunidade de mergulhar numa pesquisa que demandasse mais tempo, dedicação.”
Durante as filmagens, alguns momentos se tornaram mais marcantes, especialmente as descobertas que contradizem a narrativa oficial do forró. Uma delas foi apresentada pelo músico Caçapa: “Você sabia que outras mulheres tinham gravado repertório de xote, baião, côco, toada antes mesmo de Luiz Gonzaga estrear na indústria fonográfica? Eu fiquei muito surpreso quando Caçapa me apresentou a história de Stefana de Macêdo e da dupla Xerém e Tapuya. Essa não é uma informação trivial e ela ser ofuscada ao longo dos anos é muito sintomática sobre como invisibilizamos a história das mulheres.”
Outra figura que o impactou foi Dona Joana Alves, referência nacional no trabalho de preservação do forró e uma das vozes fundamentais para que o gênero fosse reconhecido como Patrimônio Imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2021.
“Ela [Dona Joana] dedicou a vida inteira à cultura do forró, construindo caminhos, articulando políticas e unindo comunidades. É uma grandeza que ainda não recebeu o reconhecimento que merece.”
Durante o levantamento, Igor mapeou mais de 110 mulheres ligadas ao forró, um número que ele acredita ser apenas a superfície. No filme, o que aparece é justamente essa abundância: mulheres compondo, produzindo, criando arranjos, pesquisando, organizando festivais, guardando memórias e abrindo caminho para novas gerações.
Mais do que compilar histórias, o documentário faz um gesto de reparação. Ele reorganiza a prateleira da história e devolve às artistas o lugar que sempre foi delas. Valoriza quem inovou, quem resistiu e quem fez o forró atravessar décadas, estados, fronteiras e ciclos culturais.